Saída de Flávio Bolsonaro do Brasil pode agravar medidas judiciais, avaliam juristas

Publicada em • Zeudir Queiroz

Descumprimento de ordem judicial pode motivar novas restrições e diligências; eventual prisão depende de requisitos legais e das garantias constitucionais aplicáveis a senadores

Foto: Reprodução

A saída do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) do Brasil, em meio a uma ordem judicial que o proibia de deixar o país, pode ter consequências para as investigações criminais às quais ele responde. Juristas ouvidos pelo Correio avaliam que o descumprimento de determinações judiciais pode levar à revisão das medidas cautelares e à adoção de novas diligências. Uma eventual prisão, porém, depende do preenchimento de requisitos legais e enfrenta restrições constitucionais específicas por se tratar de um parlamentar em exercício.

A Polícia Federal (PF) informou, na quarta-feira, que investiga as circunstâncias do descumprimento da ordem judicial. Os passaportes comum e diplomático de Flávio foram cancelados, e um alerta migratório foi inserido no sistema de controle de fronteiras. A corporação ressaltou que a restrição de documentos de viagem, isoladamente, não caracteriza formalmente alguém como foragido nem autoriza sua prisão.

Descumprimento pode levar a novas medidas cautelares

Professor de Direito e Processo Penal do Ibmec, Tédney Moreira explica que o descumprimento de uma obrigação imposta pela Justiça pode justificar o reforço das medidas cautelares. Entre as possibilidades estão novas restrições de deslocamento, comparecimento periódico às autoridades e outras providências adequadas ao caso.

Segundo o especialista, se ficar demonstrado que Flávio deixou o país deliberadamente para evitar a atuação judicial, a conduta poderá ser considerada um elemento concreto de risco à aplicação da lei penal.

Moreira ressalta, contudo, que a saída do país não comprova, por si só, os crimes investigados. A análise deve considerar as circunstâncias da viagem, a natureza da ordem judicial e os riscos efetivos para a investigação. A prisão preventiva não decorre automaticamente do descumprimento: exige fundamentação jurídica e o preenchimento dos requisitos previstos no Código de Processo Penal.

Constituição estabelece restrições à prisão de senadores

A condição de senador acrescenta uma particularidade ao caso. O artigo 53 da Constituição Federal estabelece que deputados e senadores, desde a diplomação, só podem ser presos em flagrante de crime inafiançável. Nessa hipótese, os autos devem ser encaminhados à respectiva Casa legislativa em até 24 horas, para que os parlamentares deliberem sobre a prisão.

As garantias constitucionais, entretanto, não impedem a continuidade das investigações nem afastam a possibilidade de adoção de providências judiciais cabíveis, desde que respeitados os limites legais aplicáveis ao mandato parlamentar.

Investigação pode avançar com novas diligências

A advogada constitucionalista e professora universitária Lívia Medeiros destaca que a análise precisa respeitar as particularidades de cada investigação. Segundo ela, os procedimentos podem resultar em novas diligências, arquivamento ou oferecimento de denúncia pelo Ministério Público.

Caso a acusação seja apresentada e recebida pela Justiça, começa a ação penal, com produção de provas e oportunidade para a defesa se manifestar.

A professora também observa que relações pessoais, contatos com empresários ou proximidade com investigados não são suficientes, isoladamente, para demonstrar participação criminosa. A responsabilização depende de elementos concretos que sustentem a acusação.

Financiamento de filme está sob apuração

No inquérito relacionado ao financiamento do filme Dark Horse, sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro, a apuração precisa esclarecer a origem dos recursos, a natureza das operações e a existência de eventual irregularidade. Flávio nega ter cometido ilegalidades no pedido de financiamento privado.

A investigação deverá reunir elementos que permitam às autoridades avaliar as operações financeiras e verificar se houve alguma conduta ilícita. A existência de uma apuração, por si só, não representa comprovação de crime.

Permanência nos Estados Unidos pode exigir cooperação internacional

A permanência do senador nos Estados Unidos também pode exigir mecanismos de cooperação internacional para a realização de diligências, obtenção de informações e cumprimento de atos processuais.

Moreira ressalta que eventual extradição depende de fundamento jurídico próprio, pedido formal e atendimento às exigências legais e aos tratados aplicáveis. O cancelamento de passaportes brasileiros, por si só, não equivale a um mandado internacional de prisão.

O professor de Direito Constitucional David Sobreira, da Universidade Christus (Unichristus), avalia que a distância pode dificultar a atuação das autoridades brasileiras. Na análise dele, a continuidade dos procedimentos dependerá dos instrumentos jurídicos disponíveis e da possibilidade de realizar atos processuais mesmo com o investigado no exterior.

A situação, entretanto, não impede automaticamente o avanço das apurações ou eventual apresentação de denúncia.

Fim do mandato não extingue investigações

Outro ponto envolve o fim do mandato parlamentar, previsto para fevereiro de 2027. De acordo com Lívia Medeiros, o encerramento do mandato não extingue investigações nem elimina eventual responsabilidade criminal.

A definição do tribunal competente depende da relação entre os fatos apurados e o exercício da função pública, conforme o entendimento do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a manutenção do foro por prerrogativa de função em determinadas hipóteses.

Retomada do caso das rachadinhas depende de decisões anteriores

A eventual retomada do caso das chamadas rachadinhas, por sua vez, dependeria do conteúdo das decisões judiciais anteriores, da validade de novas provas e dos prazos de prescrição.

A professora destaca que anulação de provas, rejeição de denúncia, arquivamento e absolvição definitiva são situações distintas, com consequências jurídicas próprias. Por isso, qualquer possibilidade de reabertura ou retomada de procedimentos precisa ser examinada à luz das decisões já proferidas e das regras processuais aplicáveis.

Investigação não provoca inelegibilidade automática

No campo eleitoral, uma investigação criminal também não produz inelegibilidade automática. A aplicação da Lei da Ficha Limpa depende do enquadramento em uma das hipóteses previstas na legislação e do cumprimento dos requisitos legais e judiciais correspondentes.

Assim, eventuais consequências eleitorais para Flávio Bolsonaro dependerão do desfecho dos procedimentos e da existência de decisões que se enquadrem nas hipóteses previstas em lei.

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Com informações do G1