Abin alerta para risco crítico de interferência dos EUA nas eleições brasileiras

Publicada em • Zeudir Queiroz

Relatório encaminhado ao Planalto, ao Ministério da Justiça e ao TSE aponta escalada da pressão norte-americana sobre o Brasil e interesse em ativos estratégicos

(Crédito: Divulgação/MRE)

A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elaborou um relatório no qual alerta para o risco de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras de 2026. O documento classifica como “crítico” o nível alcançado pela pressão exercida por Washington sobre o Brasil às vésperas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro.

O relatório foi encaminhado ao Palácio do Planalto, ao Ministério da Justiça e Segurança Pública e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no fim de agosto. O conteúdo foi revelado pela Folha de S.Paulo e confirmado pelo Correio.

A análise reúne documentos do governo norte-americano produzidos entre novembro de 2025 e maio de 2026. Segundo a Abin, as medidas adotadas pelo governo do presidente Donald Trump indicam uma tentativa de ampliar a influência dos Estados Unidos na América Latina, conter a presença de potências rivais e garantir acesso a ativos estratégicos, riquezas naturais e infraestruturas da região.

Relatório identifica escalada da pressão sobre o Brasil

Na avaliação da Abin, houve uma intensificação seletiva e uma reconfiguração da pressão exercida pelos Estados Unidos. O documento também aponta uma tendência de escalada das ações direcionadas ao Brasil.

De acordo com o relatório, o alinhamento ideológico dos países latino-americanos com Washington seria uma das prioridades do segundo governo Trump. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, é apontado como um dos principais responsáveis pela condução dessa estratégia.

A agência considera que divergências econômicas e comerciais podem ser utilizadas como instrumentos para ampliar a participação norte-americana na política interna dos países do continente. O documento ressalta, porém, que se trata de uma análise de risco e de tendências, não de uma conclusão judicial sobre a ocorrência de crime eleitoral.

O alerta divulgado pela Abin ocorre em meio ao aumento das tensões diplomáticas entre Brasília e Washington.

Gilmar Mendes destaca ameaça à soberania

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), comentou o conteúdo do relatório em uma publicação nas redes sociais. Segundo ele, o documento aponta um risco crítico de interferência externa nas eleições brasileiras, associado ao interesse sobre ativos estratégicos e riquezas naturais do país.

Integrantes do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva avaliam que a pressão dos Estados Unidos deixou de estar restrita aos setores técnicos da administração norte-americana e passou a envolver diretamente o núcleo político da Casa Branca.

Essa percepção também aparece nas conversas mantidas pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, com Marco Rubio. Conforme interlocutores que acompanham as tratativas, o governo brasileiro afirmou que pressões políticas não produzirão o efeito desejado por Washington.

Combate ao crime organizado entra na disputa diplomática

As recentes declarações dos Estados Unidos sobre o combate ao crime organizado no Brasil também são analisadas pelo governo Lula dentro desse contexto.

Na quarta-feira, Trump acusou o governo brasileiro de agir com negligência no enfrentamento ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e ao Comando Vermelho (CV), classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas. Washington também avalia a possibilidade de impor sanções a pessoas e empresas suspeitas de manter relações financeiras com as facções.

Para integrantes do governo brasileiro, eventuais medidas devem ser direcionadas às pessoas responsáveis por atividades criminosas, sem atingir o país ou comprometer os mecanismos de cooperação internacional.

A posição defendida pelo Planalto é a de separar os acordos policiais e os tratados firmados entre Brasil e Estados Unidos de iniciativas consideradas instrumentos de pressão política.

Tarifas e defesa de Bolsonaro aumentaram tensão

O relatório reforça uma desconfiança que já existia no Palácio do Planalto desde julho de 2025, quando Trump anunciou tarifas contra exportações brasileiras e fez uma defesa pública do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Na ocasião, o presidente norte-americano relacionou as medidas comerciais ao processo judicial contra Bolsonaro no STF, classificou o julgamento como uma “vergonha internacional” e defendeu sua interrupção.

Para auxiliares de Lula, a manifestação representou uma interferência direta em assuntos internos do Brasil e demonstrou que as divergências entre os dois países ultrapassavam as questões comerciais.

Documento apresentou exigências ao Brasil

As tensões aumentaram após a apresentação de um documento com 21 pontos nas negociações bilaterais. Entre as exigências atribuídas aos Estados Unidos estavam garantias para a participação eleitoral de pessoas classificadas por Washington como “dissidentes políticos”, acesso exclusivo a minerais críticos e a renovação das frotas das companhias aéreas brasileiras com aeronaves da Boeing.

Essa última proposta prejudicaria concorrentes como a Airbus, da França, e a própria Embraer. Os termos foram rejeitados pelo governo brasileiro e posteriormente retirados das negociações conduzidas por Mauro Vieira, Marco Rubio e pelo representante comercial norte-americano, Jamieson Greer.

Ministros do STF falam em pressão estrangeira

Durante sessão do STF realizada na terça-feira, o ministro Flávio Dino classificou as ações norte-americanas como uma tentativa de intervenção estrangeira e uma forma de pressão ilegítima.

Dino também mencionou a possibilidade de novas sanções com base na Lei Magnitsky contra integrantes do Supremo, incluindo Alexandre de Moraes e Gilmar Mendes.

No mesmo dia, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro afirmou que trabalha junto à Casa Branca pela adoção de novas sanções. Em publicação nas redes sociais, ele alegou que a punição internacional de pessoas acusadas de crimes não representaria uma violação da soberania brasileira.

Diante do cenário, o governo e as instituições eleitorais acompanham possíveis movimentos externos capazes de atingir o processo eleitoral. O alerta da Abin deverá orientar o monitoramento de ações diplomáticas, econômicas e informacionais durante a reta final da campanha.

Com informações do Correio Brasiliense