Monumento foi financiado por líder de grupo de quimbanda e inaugurado durante celebração religiosa na Taíba

A construção de uma estátua em homenagem ao Diabo, localizada na Taíba, distrito de São Gonçalo do Amarante, na Região Metropolitana de Fortaleza, foi financiada integralmente com recursos próprios da líder religiosa conhecida como Mãe Rainha das Trevas. Segundo ela, o investimento foi de R$ 100 mil.
A líder, que se apresenta como feiticeira, bruxa e chefe do Palácio Estrela Negra da Quimbanda, afirmou que o monumento foi erguido em um terreno de sua propriedade, após obter todas as autorizações exigidas pelos órgãos públicos.
“Todo o investimento saiu do meu próprio bolso. A construção foi feita em uma propriedade particular, que pertence a mim, e dentro da legalidade”, declarou.
O projeto foi elaborado por um engenheiro civil, mas a responsável preferiu não informar o tempo necessário para a conclusão da obra.
Prefeitura confirma regularidade da construção
Em nota, a Prefeitura de São Gonçalo do Amarante informou que o templo religioso e a estátua atendem às exigências ambientais e urbanísticas previstas na legislação.
Segundo a administração municipal, a Licença Ambiental e o Alvará de Construção foram concedidos após autorização da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Mudança do Clima (SEMA), já que o empreendimento está localizado na Área de Proteção Ambiental (APA) das Dunas do Litoral Oeste.
O município destacou ainda que o licenciamento avaliou apenas a conformidade ambiental e urbanística da obra, reafirmando o compromisso com a legalidade e com a liberdade religiosa garantida pelo artigo 5º da Constituição Federal.
Inauguração reuniu fiéis
A inauguração da estátua ocorreu em 25 de julho, durante a comemoração dos 29 anos da casa religiosa comandada por Mãe Rainha das Trevas.
Ela afirma que o monumento é a maior estátua do Diabo do mundo, embora não exista registro oficial que confirme a informação.
O templo está localizado em uma área de sítios, cercada por ruas de areia e próxima ao litoral da Taíba.
Líder religiosa relata ataques preconceituosos
Com quase 800 mil seguidores nas redes sociais, Mãe Rainha das Trevas divulgou imagens da inauguração da estátua em seu perfil, onde recebeu manifestações de apoio, mas também críticas e comentários considerados preconceituosos.
Ela defendeu o direito à liberdade religiosa e pediu respeito às diferentes crenças.
“Eu vivo em um país laico e tenho o direito de professar minha fé. Respeito todas as religiões e peço que respeitem a minha também”, afirmou.
A legislação brasileira considera crime a intolerância religiosa quando há discriminação, preconceito, impedimento de direitos ou incitação ao ódio em razão da religião, conforme estabelece a Lei nº 7.716/1989.
Histórico da comunidade religiosa
Antes de se instalar na Taíba, Mãe Rainha das Trevas liderava a chamada Casa dos Caixões, localizada no bairro Montese, em Fortaleza.
Ela relembra que os episódios de preconceito começaram ainda naquela época, devido à aparência do espaço religioso, pintado de preto e decorado com caixões utilizados em cerimônias.
Hoje, o Palácio Estrela Negra da Quimbanda realiza giras mensais e celebrações abertas ao público, reunindo entre 200 e 300 participantes.
Além das atividades religiosas, a líder afirma promover ações sociais, como a doação anual de toneladas de carne proveniente dos animais sacrificados em rituais e a distribuição de centenas de brinquedos durante o Dia das Crianças.
Quimbanda é apresentada como culto ancestral
O sacerdote Barok, Tata N’ganga de Quimbanda Brasileira, explicou que a quimbanda é um culto ancestral frequentemente alvo de preconceito.
Segundo ele, durante muitos anos a prática foi associada de forma equivocada ao “lado negativo” da Umbanda, visão que considera fruto da intolerância religiosa.
Barok afirma que a quimbanda busca a evolução espiritual por meio do culto a entidades como exus e pombagiras.
Ele explica que o termo “kimbanda” tem origem nos povos bantos e era utilizado para designar curandeiros responsáveis por práticas de cura e magia.
Entre as crenças da tradição está a reencarnação, vista como um ciclo que deve ser superado por meio da evolução espiritual. De acordo com o sacerdote, o objetivo dos praticantes é alcançar um estágio espiritual elevado, tornando-se exus ou pombagiras após a morte.
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Com informações do G1
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