Padre brasileiro é excomungado após aderir a fraternidade em ruptura com Roma

Publicada em • Zeudir Queiroz
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A Diocese de Jundiaí, no interior de São Paulo, anunciou que o padre Rodrigo de Oliveira Silva encontra-se em situação de cisma e excomunhão após sua adesão à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX). A decisão ocorre após o Vaticano estabelecer novas consequências canônicas para bispos, sacerdotes e fiéis formalmente ligados ao grupo tradicionalista.

Em comunicado, o bispo diocesano, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, afirmou que a situação do sacerdote decorre das determinações anunciadas pelo Dicastério para a Doutrina da Fé após as consagrações episcopais realizadas pela FSSPX sem autorização do papa Leão XIV.

Segundo a Diocese, os atos ministeriais praticados pelo padre são ilícitos. A absolvição no sacramento da Penitência e os matrimônios por ele assistidos também são considerados inválidos de acordo com as determinações atualmente estabelecidas pela Santa Sé para os ministros da fraternidade.

Padre havia deixado funções na Diocese em fevereiro

A situação de Rodrigo de Oliveira Silva já vinha sendo acompanhada pela Diocese de Jundiaí desde fevereiro de 2026. Na ocasião, a Diocese informou que o sacerdote havia se desligado voluntariamente de suas funções e da comunhão com a Igreja local para se unir à FSSPX.

Em comunicado publicado naquele mês, Dom Arnaldo determinou a suspensão do exercício do ministério ordenado do sacerdote e o proibiu de celebrar a Eucaristia, administrar sacramentos ou exercer atos de jurisdição e governo em nome da Igreja Católica na Diocese de Jundiaí.

Rodrigo nasceu em Cajamar, no interior paulista. Estudou no Seminário Diocesano Nossa Senhora do Desterro e concluiu sua formação em Filosofia e Teologia em 2009. Foi ordenado diácono em 2010 e sacerdote no ano seguinte. Antes do afastamento, exercia a função de pároco da Paróquia Santo Antônio.

A reportagem não conseguiu contato com o padre Rodrigo de Oliveira Silva.

Consagrações sem autorização provocaram ruptura com Roma

A nova crise envolvendo a Fraternidade Sacerdotal São Pio X ganhou força em 1º de julho de 2026, quando o grupo realizou, em Écône, na Suíça, a consagração de quatro novos bispos sem mandato pontifício.

Os bispos Alfonso de Galarreta e Bernard Fellay consagraram Pascal Schreiber, Michael Goldade, Michel Poinsinet de Sivry e Marc Hanappier. O ato ocorreu apesar dos pedidos do Vaticano para que as ordenações episcopais não fossem realizadas sem a autorização de Leão XIV.

No dia seguinte, o Dicastério para a Doutrina da Fé publicou um decreto declarando que os dois bispos consagrantes e os quatro novos bispos haviam incorrido automaticamente em excomunhão. O Vaticano classificou as consagrações como um “ato de natureza cismática”.

Uma nota explicativa divulgada juntamente com o decreto estabeleceu ainda que os sacerdotes pertencentes à FSSPX estão em situação de separação da Igreja de Roma. Em relação aos leigos, a determinação alcança aqueles que aderem formalmente à fraternidade.

O documento também afirma que os ministros da FSSPX administram ilicitamente os sacramentos e considera inválidas a Penitência administrada por seus sacerdotes e a assistência aos matrimônios.

Vaticano estabelece caminho para retorno à comunhão

A Santa Sé afirmou que pessoas vinculadas à fraternidade que desejarem retornar à plena comunhão com Roma poderão fazê-lo seguindo procedimentos definidos pelas autoridades eclesiásticas.

O Vaticano também orientou os católicos a permanecerem em comunhão com o papa e com os bispos ligados a Roma e a não participarem das celebrações e atividades promovidas pela FSSPX.

A crise de 2026 retomou um conflito que teve seu episódio mais grave anterior em 1988, quando o fundador da fraternidade, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, consagrou quatro bispos sem autorização do papa João Paulo II. As excomunhões daqueles quatro bispos foram posteriormente retiradas por Bento XVI, em 2009, como parte das tentativas de aproximação com o grupo.

Fraternidade contesta acusação de cisma

Fundada em 1970 por Marcel Lefebvre (1905-1991), a Fraternidade Sacerdotal São Pio X surgiu em meio às resistências às reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965.

O grupo mantém posições críticas em relação a aspectos das reformas conciliares, especialmente em temas como liturgia, ecumenismo e diálogo inter-religioso. A fraternidade também preserva a celebração segundo o Missal Romano de 1962, normalmente associado à chamada missa tridentina, celebrada em latim.

A FSSPX rejeita, porém, a interpretação de que as consagrações episcopais realizadas sem autorização de Roma representem necessariamente uma ruptura da comunhão com a Igreja.

Após as consagrações de julho, a própria fraternidade reconheceu que os quatro novos bispos foram ordenados sem autorização do papa, mas argumentou que circunstâncias excepcionais e necessidades pastorais justificariam a decisão.

Em documentos publicados após a cerimônia, a FSSPX voltou a contestar a validade das sanções impostas pelo Vaticano e sustentou que as consagrações não tiveram intenção cismática nem buscaram estabelecer uma jurisdição eclesiástica independente.

A interpretação é rejeitada pela Santa Sé, que considera as consagrações realizadas em 1º de julho um ato de natureza cismática e mantém as consequências canônicas anunciadas pelo Dicastério para a Doutrina da Fé.  
Zeudir Queiroz