Projetos associados ao Complexo do Pecém somam estimativas de R$ 60 bilhões, porém permanecem em fases de desenvolvimento, licenciamento e estruturação financeira

O Ceará consolidou-se como uma das principais potências brasileiras na produção de energia renovável, impulsionado pela abundância de sol e vento. Nos últimos anos, o hidrogênio verde também passou a ocupar posição central na estratégia econômica e industrial do estado.
Desde 2021, o Governo do Ceará apresenta o Complexo Industrial e Portuário do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza, como futuro polo de produção e exportação de hidrogênio e amônia verde.
A iniciativa ganhou projeção internacional, atraiu empresas e resultou na assinatura de memorandos de entendimento, pré-contratos e reservas de áreas industriais. Inicialmente, os investimentos anunciados para os projetos associados ao polo chegaram a aproximadamente US$ 24 bilhões.
Em abril de 2026, o Complexo do Pecém passou a divulgar uma estimativa de cerca de R$ 60 bilhões em investimentos relacionados aos sete pré-contratos firmados.
Valores representam projeções empresariais
O doutor em Engenharia Civil e Saneamento Ambiental Ulisses Costa ressalta que os valores anunciados representam projeções das empresas interessadas e não significam, necessariamente, recursos já desembolsados, obras contratadas ou equipamentos instalados.
“Esses valores representam projeções empresariais. Não necessariamente correspondem a recursos já desembolsados, obras contratadas ou equipamentos instalados”, explicou.
Segundo Costa, o Ceará passou os últimos cinco anos tentando transformar suas condições naturais e logísticas em uma nova fronteira industrial. A estratégia reúne o potencial solar e eólico, a infraestrutura portuária e a localização geográfica do estado em relação aos mercados internacionais.
O especialista reconhece que houve avanços concretos na articulação institucional, na atração de investidores e na criação das condições administrativas para o desenvolvimento do setor. A produção industrial em grande escala, entretanto, ainda não começou.
Projetos ainda aguardam decisões de investimento
Até meados de 2026, os principais empreendimentos anunciados para o Hub de Hidrogênio Verde do Pecém permaneciam em fases de desenvolvimento, licenciamento ambiental, estruturação financeira ou contratação da infraestrutura necessária.
As decisões finais de investimento das empresas vinculadas ao polo eram esperadas para o final de 2026, segundo informações divulgadas pelo próprio Complexo do Pecém.
A decisão final de investimento representa uma etapa fundamental para a execução dos projetos. É nesse momento que as empresas confirmam a viabilidade financeira e técnica dos empreendimentos, autorizando a aplicação dos recursos e o início efetivo das obras.
Sem essa definição, os valores anunciados continuam caracterizados como estimativas, ainda que os contratos e licenciamentos demonstrem o avanço institucional das iniciativas.
Estudo analisa avanços e limitações do polo
As observações fazem parte do ensaio “Ceará prepara polo bilionário de hidrogênio verde, mas produção industrial ainda não saiu do papel”, elaborado por Ulisses Costa.
O documento analisa os projetos anunciados, os avanços regulatórios, as experiências realizadas e os investimentos em infraestrutura necessários para que o Ceará comece a produzir e exportar hidrogênio e amônia verde em escala comercial.
O estudo destaca que a principal entrega física realizada até o momento foi a produção da primeira molécula de hidrogênio verde na planta-piloto instalada pela EDP no Pecém, em janeiro de 2023.
Planta-piloto comprovou viabilidade tecnológica
A planta-piloto da EDP utiliza uma usina solar com capacidade de 3 megawatts e possui capacidade declarada para produzir 250 metros cúbicos normais de hidrogênio por hora.
“O empreendimento utiliza uma usina solar de 3 megawatts e possui capacidade declarada de produção de 250 metros cúbicos normais de hidrogênio por hora. A instalação foi concebida para pesquisa, desenvolvimento e demonstração tecnológica”, detalhou Costa.
A experiência comprovou que o hidrogênio verde pode ser produzido no Ceará utilizando energia solar. O projeto também permitiu testar equipamentos, processos e possibilidades de aplicação da tecnologia.
Apesar do resultado positivo, o volume produzido é muito inferior ao previsto nos grandes empreendimentos industriais apresentados para o Pecém.
Produção ainda não alcançou escala comercial
Para Ulisses Costa, a experiência da EDP representa uma entrega tecnológica efetiva, mas não pode ser considerada o início da operação comercial do Hub de Hidrogênio Verde.
A planta-piloto não comprova, até o momento, uma produção contínua destinada à exportação, nem os resultados econômicos e ambientais esperados para os projetos de grande escala.
Os empreendimentos industriais anunciados preveem investimentos bilionários, geração de empregos, ampliação da infraestrutura portuária e redução de emissões em atividades que atualmente dependem de combustíveis fósseis.
Esses resultados, entretanto, dependem da construção das plantas industriais e da confirmação das decisões de investimento pelas empresas.
Fortescue está entre os projetos mais avançados
O estudo aponta o projeto da Fortescue como um dos mais avançados entre os empreendimentos previstos para o Ceará.
Em 2024, uma resolução federal aprovou a primeira fase do projeto na Zona de Processamento de Exportação do Ceará. A autorização permite o desenvolvimento do empreendimento sob o regime tributário, cambial e administrativo especial da ZPE.
Segundo os dados divulgados, a unidade poderá produzir aproximadamente 500 toneladas de hidrogênio verde por dia e demandará cerca de 1,2 gigawatt de energia renovável.
“A aprovação na ZPE reduz incertezas administrativas e permite o desenvolvimento do empreendimento sob o regime especial da zona”, afirmou Costa.
Apesar do avanço regulatório, a implantação da unidade ainda depende do cumprimento de diferentes etapas técnicas, ambientais, financeiras e estruturais.
Porto precisará de investimentos em infraestrutura
A produção em larga escala também exigirá investimentos bilionários na infraestrutura do Complexo do Pecém. Para exportar grandes quantidades de amônia verde, o Ceará precisará ampliar suas instalações portuárias e construir sistemas compartilhados de armazenamento e transporte.
Em 2023, o Complexo do Pecém estimava investimentos de aproximadamente R$ 2,2 bilhões na preparação do terminal para atender aos projetos de hidrogênio verde.
Entre as estruturas previstas estão corredores de utilidades, dutos, terminais de amônia, instalações de armazenamento, subestações, linhas de transmissão, sistemas de segurança e equipamentos portuários especializados.
A construção dessa infraestrutura é considerada indispensável para integrar as futuras plantas industriais ao porto e permitir o transporte seguro dos produtos destinados ao mercado internacional.
Potencial depende da transformação dos projetos em obras
O Ceará reúne condições naturais, logísticas e institucionais favoráveis para ocupar uma posição relevante no mercado mundial de hidrogênio verde. O avanço do polo, porém, depende da transformação dos anúncios, memorandos e pré-contratos em decisões definitivas de investimento e obras efetivamente executadas.
A experiência da planta-piloto mostrou a viabilidade técnica da produção, enquanto as aprovações regulatórias e reservas de áreas demonstram o progresso institucional. O próximo desafio será levar os projetos à escala industrial e construir a infraestrutura necessária para produção, armazenamento e exportação.
Até que essas etapas sejam concluídas, o Hub de Hidrogênio Verde do Pecém permanece como uma iniciativa de elevado potencial econômico e ambiental, mas ainda distante da operação comercial projetada.
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Com informações de O Estado CE
