Estátua de Santo Antônio ganha cabeça após 39 anos e projeta Caridade no cenário nacional

Publicada em • Zeudir Queiroz

Monumento inspira livro, terá adaptação para o cinema e será tema da Unidos da Tijuca no Carnaval de 2027

Foto: Reprodução

 

A estátua de Santo Antônio, localizada em Caridade, no interior do Ceará, vive um novo capítulo de uma história iniciada há mais de quatro décadas. Entre o fim de agosto e o início de setembro, foram concluídos os trabalhos de pintura e acabamento da cabeça do monumento, instalada sobre o corpo da imagem em dezembro de 2025.

A colocação da peça encerrou uma espera de 39 anos. Durante esse período, o corpo da estátua permaneceu no alto do Morro do Serrote, também conhecido como Serrote do Cágado, enquanto a cabeça de concreto ficou a aproximadamente três quilômetros de distância, em frente à residência da trabalhadora doméstica Antônia Cilda.

A situação inusitada atravessou gerações, despertou a curiosidade de moradores e visitantes e transformou o monumento inacabado em uma das histórias mais conhecidas do município.

Monumento fortalece o turismo religioso

Com aproximadamente 19 metros de altura, a estátua passou a ocupar um lugar de destaque na identidade cultural e religiosa de Caridade. A recuperação da imagem integra um projeto voltado ao fortalecimento do turismo religioso no município.

A proposta prevê a implantação de um complexo com museu, mirante, capela, pontos comerciais, escadarias, rampas de acesso e estacionamento. O objetivo é oferecer uma estrutura adequada para receber fiéis, turistas e visitantes interessados na história do monumento.

A expectativa é transformar o espaço em um importante destino de peregrinação e convivência, ampliando a movimentação turística e contribuindo para o desenvolvimento econômico da cidade.

Obra iniciada em 1984 ficou paralisada

A construção da estátua começou em 1984, durante a gestão do então prefeito Raul Linhares. Inspirado pela tradição religiosa da vizinha Canindé, o projeto pretendia atrair visitantes e impulsionar o turismo de fé em Caridade.

Os trabalhos, entretanto, foram interrompidos em 1986 por falta de recursos. O corpo da imagem permaneceu exposto no alto do morro, enquanto a cabeça, construída no nível da rua, nunca chegou a ser transportada e instalada.

Somente em dezembro de 2025, quase quatro décadas depois, a peça foi levada ao Morro do Serrote e colocada sobre o restante da estrutura. A pintura e os acabamentos realizados posteriormente deram uma nova aparência ao monumento.

História chegou à literatura e ganhará adaptação para o cinema

O episódio da cabeça separada do corpo inspirou a escritora cearense Socorro Acioli, que transformou a história no romance A Cabeça do Santo. Na obra, a autora mistura religiosidade, cultura popular, afetividade e realismo fantástico.

O livro ajudou a projetar nacionalmente a história de Caridade e também conquistou leitores fora do Brasil. Agora, a narrativa será adaptada para o cinema pela produtora e cineasta Joana Mariani.

A primeira versão do roteiro foi escrita pela cearense Natália Maia, que também participou do roteiro do premiado longa-metragem Pacarrete, dirigido por Allan Deberton.

Unidos da Tijuca levará história para a Sapucaí

A trajetória do monumento também chegará ao Carnaval do Rio de Janeiro. A Unidos da Tijuca terá o livro de Socorro Acioli como inspiração para o seu enredo de 2027.

A escola de samba levará à Marquês de Sapucaí uma narrativa marcada pela religiosidade, pelo imaginário popular, pelo realismo fantástico e pela cultura nordestina.

A homenagem deverá ampliar ainda mais a visibilidade de Caridade e da história da estátua que permaneceu sem cabeça durante 39 anos.

Escultor celebra repercussão nacional

Responsável pela obra original, o escultor Franzé da Aurora destacou que a qualidade dos materiais utilizados contribuiu para preservar tanto o corpo quanto a cabeça da estátua ao longo das décadas.

Segundo o artista, a cabeça foi construída em partes separadas, que seriam posteriormente transportadas e montadas sobre o corpo localizado no alto do morro. Para Franzé, a obra já estava artisticamente concebida, mesmo quando suas partes permaneciam separadas.

Escultor, radialista e poeta, Franzé da Aurora comemorou a repercussão alcançada pelo monumento. Mesmo tendo permanecido incompleta durante décadas, a imagem tornou-se uma de suas criações mais conhecidas e ajudou a transformar Caridade em referência de uma história que une arte, fé, literatura e memória popular.