Equipamento foi montado em sete dias e custou R$ 8,5 mil; iniciativa chama atenção para a acessibilidade e a prevenção de acidentes domésticos

Um mecânico de tratores de 71 anos construiu um elevador na própria residência, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, depois que sua esposa sofreu quedas frequentes ao utilizar a escada do imóvel.
Jorge Luiz Pereira recorreu aos conhecimentos adquiridos ao longo da vida profissional para desenvolver o equipamento. A estrutura foi concluída em sete dias e teve custo aproximado de R$ 8,5 mil.
Embora a iniciativa tenha surgido da preocupação com a segurança da família, especialistas recomendam que equipamentos dessa natureza sejam avaliados por profissionais legalmente habilitados antes de serem utilizados.
Quedas da esposa motivaram construção
A decisão de construir o elevador surgiu após Antônia, esposa de Jorge, cair diversas vezes enquanto subia ou descia a escada da residência.
Diante do risco de novos acidentes, o mecânico começou a comprar gradualmente os componentes necessários. Primeiro foram adquiridos o motor e os trilhos. Depois, conforme reuniu os demais materiais, ele iniciou a montagem do equipamento.
Jorge contou com a colaboração de um eletricista e de um marceneiro durante a execução. Antes de liberar o uso, realizou testes com sacos de areia para observar o funcionamento e a resistência da estrutura. O elevador passou a ser utilizado pela esposa e pelos netos do mecânico.
Equipamento custou R$ 8,5 mil
O custo aproximado de R$ 8,5 mil chamou atenção por ser inferior ao valor normalmente associado à aquisição e instalação de elevadores residenciais comercializados por empresas especializadas.
A diferença, entretanto, está relacionada ao fato de o equipamento ter sido construído artesanalmente e não seguir um padrão industrial. Por isso, o baixo custo não deve ser interpretado como incentivo para que outras pessoas reproduzam a estrutura sem projeto, dimensionamento e acompanhamento técnico.
Elevadores envolvem sistemas mecânicos, elétricos e estruturais. Falhas no motor, nos cabos, nos trilhos, nas travas, nos sensores ou na sustentação podem provocar acidentes graves.
Construção caseira exige atenção à segurança
Mesmo quando o responsável possui experiência com máquinas, um equipamento destinado ao transporte de pessoas precisa ser submetido a uma avaliação técnica especializada.
É necessário verificar, entre outros aspectos, a capacidade máxima de carga, a resistência da estrutura, a fixação dos trilhos, a alimentação elétrica, o sistema de frenagem, as travas das portas e os mecanismos de emergência.
Também é importante avaliar se a residência suporta a instalação e se o equipamento atende às normas técnicas e às exigências municipais aplicáveis.
Até que essa verificação seja realizada, a recomendação mais segura é não transportar pessoas no equipamento.
Serviço de engenharia deve ter responsável técnico
A Lei nº 6.496, de 7 de dezembro de 1977, estabelece que contratos para execução de obras ou prestação de serviços profissionais de engenharia estão sujeitos à Anotação de Responsabilidade Técnica (ART).
O documento identifica o profissional responsável pelo projeto, pela execução ou pela avaliação do serviço. A ART deve ser registrada no Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea) pelo engenheiro ou pela empresa contratada.
No caso de um elevador residencial, o responsável técnico poderá avaliar a estrutura do imóvel, calcular as cargas, analisar os sistemas mecânicos e elétricos e indicar eventuais correções.
Mesmo que o equipamento já esteja pronto, a família deve procurar um profissional habilitado para realizar uma inspeção antes de continuar utilizando a estrutura.
Quedas não são consequência normal da idade
O caso também chama atenção para um problema de saúde pública. Segundo o Ministério da Saúde, aproximadamente 28% das pessoas idosas sofrem pelo menos uma queda por ano.
As quedas não devem ser tratadas como uma consequência inevitável do envelhecimento. Elas podem indicar redução da força muscular, problemas de equilíbrio ou visão, efeitos de medicamentos e riscos existentes dentro da própria residência.
Entre as possíveis consequências estão fraturas, traumatismos cranianos, contusões, perda de mobilidade e medo de voltar a cair. Esse receio pode fazer com que a pessoa limite suas atividades e perca gradualmente a autonomia.
Maioria dos acidentes acontece dentro de casa
A residência, que deveria ser um ambiente seguro, concentra grande parte das quedas envolvendo pessoas idosas. Escadas sem corrimão, pisos escorregadios, iluminação insuficiente, tapetes soltos e objetos espalhados estão entre os principais fatores de risco.
O perigo pode aumentar durante a noite, quando a iluminação é reduzida, ou nos casos em que a pessoa apresenta dificuldade de locomoção, alterações na visão ou utiliza medicamentos que provocam tontura e sonolência.
Por isso, quedas repetidas devem ser comunicadas à equipe de saúde. Uma avaliação médica ou fisioterapêutica pode ajudar a identificar as causas e definir estratégias para melhorar o equilíbrio, a força muscular e a segurança durante os deslocamentos.
Adaptações simples ajudam a prevenir acidentes
Nem toda residência precisa receber um elevador. Algumas intervenções mais simples e de menor custo podem reduzir significativamente os riscos.
Entre as principais recomendações estão:
- Instalar corrimãos dos dois lados da escada e em toda a sua extensão;
- Colocar faixas antiderrapantes nas bordas dos degraus;
- Manter escadas e corredores bem iluminados;
- Instalar interruptores nos dois extremos da escada ou sensores de presença;
- Retirar tapetes soltos e objetos das áreas de circulação;
- Corrigir pisos desnivelados, molhados ou escorregadios;
- Instalar barras de apoio nos banheiros;
- Usar calçados fechados, firmes e com solado antiderrapante;
- Manter os ambientes organizados e livres de obstáculos;
- Utilizar bengalas ou andadores somente com orientação profissional.
As recomendações fazem parte das medidas de prevenção indicadas pelo Ministério da Saúde para preservar a autonomia e a qualidade de vida das pessoas idosas.
Acessibilidade preserva autonomia e qualidade de vida
A história de Jorge e Antônia evidencia como a falta de acessibilidade pode alterar a rotina de uma família. Quando uma pessoa deixa de utilizar determinados espaços da casa por medo de cair, sua independência e convivência familiar também podem ser prejudicadas.
Com o envelhecimento da população, adaptações em escadas, banheiros, quartos e corredores tornam-se cada vez mais importantes. Essas mudanças devem considerar as necessidades de cada morador e, quando envolverem estruturas ou equipamentos de transporte, precisam contar com orientação profissional.
A iniciativa do mecânico demonstra cuidado e criatividade, mas também reforça um alerta: soluções destinadas ao transporte de pessoas precisam ser avaliadas tecnicamente para que a busca por acessibilidade não crie um novo risco dentro de casa.
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Com informações de https://www.correiobraziliense.com.br/
