
O relatório da Polícia Federal que investiga um suposto esquema de negociação de emendas parlamentares, fraudes em licitações e financiamento ilegal de campanhas no Ceará aponta que o deputado federal Júnior Mano (PSB) mantinha conversas frequentes com o cantor Wesley Safadão e familiares do artista.
As mensagens encontradas no celular do parlamentar mostram que Júnior Mano solicitou um patrocínio de R$ 200 mil a uma empresa ligada a Safadão. O pedido foi feito pouco depois de o cantor fechar contrato para um show na cidade de Nova Russas, município administrado por Giordanna Mano (PRD), esposa do deputado.
A Polícia Federal apontou a participação de 13 pessoas no suposto esquema criminoso, investigadas por crimes como organização criminosa com fins eleitorais, lavagem de dinheiro, falsidade ideológica eleitoral e captação ilícita de sufrágio. Wesley Safadão e sua família não são investigados por esses crimes.
Em nota enviada ao g1, o cantor afirmou que não possui envolvimento político com os citados na investigação e declarou que o pedido de patrocínio é algo comum no ambiente de eventos e entretenimento.
“O artista segue dedicado integralmente à sua carreira musical”, informou a assessoria.
Já a defesa do deputado Júnior Mano afirmou que a investigação da Polícia Federal não encontrou nada relevante contra ele e criticou o que chamou de vazamento seletivo de informações sigilosas em um momento de definição de candidaturas para as eleições.
Conversas sobre apoios políticos e uso de aeronaves
As conversas analisadas pela Polícia Federal também mostram Júnior Mano discutindo apoios políticos com Yvens Watilla, irmão de Safadão e administrador da carreira do cantor.
Em outra mensagem, o deputado pediu ao ministro dos Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, que acelerasse a liberação, pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac), de duas aeronaves de Safadão para uso durante a campanha eleitoral de 2024.
“Vou andar nesse menor nas campanhas, não aguento mais carro”, escreveu o parlamentar ao ministro.
Investigação aponta esquema de desvio de emendas
A investigação da Polícia Federal aponta que o suposto esquema seria liderado pelo ex-prefeito de Choró, Carlos Alberto Queiroz, conhecido como Bebeto Queiroz (PSB), que está foragido há mais de um ano, e pelo deputado Júnior Mano.
Segundo os investigadores, Bebeto intermediava a destinação de emendas parlamentares do deputado para prefeituras alinhadas ao grupo político. Em troca, era cobrada uma porcentagem dos valores repassados, variando entre 12% e 15%.
De acordo com a PF, Bebeto utilizava diversas empresas que possuíam contratos com prefeituras do interior do Ceará para desviar recursos públicos. O dinheiro seria usado tanto para enriquecimento ilícito quanto para financiar campanhas eleitorais de aliados, inclusive por meio da compra de votos.
Posteriormente, essas mesmas empresas passariam a conseguir contratos nas prefeituras administradas pelos aliados eleitos.
Pedido de patrocínio após contratação de show
Entre as conversas analisadas pela PF está o pedido de patrocínio feito por Júnior Mano a Wesley Safadão em 2024.
O deputado pediu que a empresa de apostas ligada ao cantor, a BetVip, patrocinasse em R$ 200 mil um evento em Nova Russas, cidade natal e base política do parlamentar.
Safadão respondeu: “Vamos falar amanhã. Tô saindo agora para uma oração”.
O pedido ocorreu pouco depois de a prefeitura de Nova Russas contratar um show do cantor para o evento Festeja Nova Russas, em 2024, por R$ 900 mil. Em 2025, o artista voltou a se apresentar no evento, desta vez com cachê de R$ 1,2 milhão.
Para os investigadores, o pedido de patrocínio poderia representar uma solicitação camuflada de propina, com devolução de parte do valor contratado pelo show.
Relação com familiares de Safadão
A Polícia Federal também identificou diversas conversas entre Júnior Mano e Yvens Watilla, nas quais discutiam apoio a candidatos em municípios do interior, movimentações financeiras e articulações políticas.
Durante uma operação de busca e apreensão em um imóvel do deputado em Fortaleza, os agentes encontraram na vaga de estacionamento um carro pertencente à empresa de Yvens Watilla.
Para a PF, as mensagens indicam que a relação entre o parlamentar e familiares de Wesley Safadão ultrapassava encontros sociais e agendas públicas, envolvendo também gestão de interesses políticos.
Estrutura do suposto esquema
Segundo a Polícia Federal, a estrutura operada por Bebeto Queiroz já existia antes da entrada de Júnior Mano no grupo. Com a participação do deputado, o esquema teria ampliado seu alcance devido à influência dele na destinação de emendas parlamentares.
“A partir da influência de Junior Mano na captação de emendas, o grupo de Bebeto direcionava os recursos para determinados municípios estratégicos, onde a alocação financeira serviria de base para a cooptação política de prefeitos e a posterior manipulação dos processos de contratação pública”, aponta o relatório.
Os investigadores identificaram pelo menos dez empresas suspeitas de participação no esquema.
Segundo análise da Controladoria-Geral da União (CGU), nove dessas empresas receberam cerca de R$ 455,5 milhões de prefeituras do Ceará entre janeiro de 2023 e janeiro de 2025.
Em mensagens analisadas pela PF, Bebeto orientava empresários sobre valores que deveriam ser enviados a políticos aliados. Os pagamentos eram feitos por Pix ou em dinheiro vivo.
Também há registros de negociações para compra de votos nas eleições de 2024, com valores entre R$ 200 e R$ 500.
Prefeituras ligadas ao grupo
Os investigadores encontraram uma lista com pelo menos 71 prefeituras do Ceará que estariam vinculadas ao deputado Júnior Mano.
Dessas, candidatos apoiados pelo grupo teriam sido eleitos em cerca de 50 municípios. Ainda não há confirmação de que esses políticos tenham recebido dinheiro do suposto esquema.
O que dizem os citados
Júnior Mano
A defesa do deputado afirmou que, após um ano de investigação, a Polícia Federal não encontrou provas relevantes contra ele.
Segundo a assessoria jurídica, o parlamentar não é responsável por ordenar despesas nem participa de processos licitatórios, o que impediria qualquer controle sobre a aplicação final dos recursos federais.
A defesa também criticou o vazamento de informações sigilosas e afirmou esperar que a investigação aberta para apurar o vazamento apresente respostas claras.
Wesley Safadão
Em nota, o cantor afirmou que não possui qualquer envolvimento político com as pessoas mencionadas no relatório.
Segundo a assessoria, a conversa divulgada refere-se apenas a um pedido de patrocínio, algo comum no setor de eventos e entretenimento.
O artista também afirmou que não participou de articulações políticas nem de decisões institucionais.
Bebeto Queiroz
A defesa de Carlos Alberto Queiroz informou que todas as manifestações sobre o caso são feitas exclusivamente nos procedimentos judiciais adequados, que seriam o foro correto para debate das questões investigadas.
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Com informações do G1
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