Candidato à reeleição também defende a criação de um Ministério da Segurança Pública, o fim do Fundo Eleitoral e uma ampla reforma política

O presidente da República e candidato à reeleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), afirmou que pretende criar uma “polícia especial” para combater o crime organizado nas comunidades brasileiras. A proposta foi apresentada durante entrevista ao programa Canal Livre.
Lula também voltou a defender a criação de um ministério dedicado exclusivamente à segurança pública. Atualmente, o setor está sob a responsabilidade do Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Segundo o presidente, a mudança dependerá da aprovação de uma proposta de emenda à Constituição pelo Congresso Nacional.
“O terrorismo na comunidade, nós vamos acabar. Aprovou a emenda constitucional; no dia seguinte, está criado o Ministério da Segurança Pública, com a definição de uma polícia especial que eu quero criar, uma Força Nacional capaz de fazer intervenção em qualquer situação”, afirmou.
Presidente critica intervenções com as Forças Armadas
Na avaliação de Lula, as intervenções federais realizadas com a participação das Forças Armadas não produziram resultados permanentes no enfrentamento às facções criminosas.
O presidente argumentou que os integrantes das organizações criminosas deixavam temporariamente as áreas ocupadas pelos militares, mas retornavam após a retirada das tropas.
“Quando levava o Exército para lá para fazer intervenção, os bandidos saíam. Quando o Exército saía, os bandidos voltavam. Essa Força Nacional é boa, mas não é suficiente. Nós precisamos de uma Força Nacional preparada para ser Força Nacional, com soldados preparados”, declarou.
A proposta apresentada por Lula prevê uma estrutura federal especializada, com agentes treinados para atuar em situações consideradas graves e em diferentes regiões do país.
O presidente não detalhou, durante a entrevista, como seriam definidos o efetivo, o comando, o financiamento e os limites de atuação da nova força.
Lula defende combate financeiro às facções
Lula afirmou que o enfrentamento ao crime organizado não deve ficar restrito às operações policiais realizadas dentro das comunidades. Para ele, uma das principais estratégias precisa ser a identificação e o bloqueio dos recursos financeiros das organizações criminosas.
O presidente classificou o crime organizado como uma “indústria multinacional” e afirmou que as facções mantêm ramificações em diferentes setores da sociedade.
Segundo Lula, o crime estaria presente na Justiça, na polícia, no futebol, na política e no meio empresarial. Por essa razão, a resposta do Estado também deveria alcançar estruturas financeiras, empresariais e institucionais relacionadas às atividades criminosas.
Presença do Estado deve ir além das operações
Durante a entrevista, Lula criticou operações policiais marcadas pelo elevado número de mortes e afirmou que esse tipo de ação não resolve o problema da segurança pública de maneira duradoura.
“É muito fácil ir lá e matar, como foi feito agora no Rio de Janeiro, no Carandiru. O governador até pega popularidade naquela semana, mas aquilo não dá resultado”, afirmou.
O presidente defendeu que as forças policiais ocupem os territórios de maneira planejada, acompanhadas da presença permanente do poder público.
Para Lula, o combate às facções deve incluir políticas públicas nas áreas de educação, saúde, assistência social, cultura, esporte, emprego e infraestrutura.
“A polícia vai ocupar de forma ordenada, mas, mais do que ocupar, é preciso que o Estado tenha presença com políticas públicas em cada comunidade”, declarou.
Lula rejeita classificação de facções como terroristas
O presidente também explicou por que discorda da classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo governo dos Estados Unidos.
Na avaliação de Lula, as facções brasileiras praticam violência e impõem medo às comunidades, mas possuem características diferentes dos grupos classificados internacionalmente como terroristas.
“Quando eu não concordo que o PCC e o Comando Vermelho sejam terroristas, é o terrorismo do Trump. O terrorismo do Trump é o terrorismo de Estado. É o terrorismo do cara que quer derrubar o governo. O nosso terrorismo aqui é para a comunidade, que não deixa a sociedade viver livremente”, afirmou.
A posição do presidente ocorre em meio ao debate sobre os efeitos jurídicos, diplomáticos e operacionais de uma eventual classificação das facções brasileiras como organizações terroristas.
Presidente defende fim do Fundo Eleitoral
Além da segurança pública, Lula falou sobre o sistema político brasileiro e defendeu a extinção do Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC), conhecido como Fundo Eleitoral.
Segundo o presidente, o fim do mecanismo deveria integrar uma ampla reforma política destinada a combater o que chamou de “promiscuidade política”.
O Fundo Eleitoral é formado por recursos públicos destinados ao financiamento das campanhas. Os valores são distribuídos aos partidos políticos, que definem os critérios internos de repasse aos candidatos.
Reforma política atingiria interesses do Congresso
Lula relacionou a redução da polarização política a mudanças nas regras partidárias e no modelo de financiamento das campanhas eleitorais.
“Vai mudar quando a gente fizer uma reforma política neste país, que precisa ser feita para criar partido sério, partido que tenha manifesto, partido que tenha compromisso com a sociedade, partido que tenha bandeira, partido que tenha programa e partido que tenha um comportamento ético”, declarou.
O presidente reconheceu, entretanto, que a aprovação de mudanças estruturais enfrenta dificuldades no Congresso por atingir diretamente os interesses de parlamentares e partidos.
“Quando se trata da reforma política, você está mexendo com o interesse pessoal de cada deputado, de cada partido político. Não é possível a gente continuar com a promiscuidade política do jeito que está”, afirmou.
Lula também criticou a participação do Congresso na definição e no controle de recursos do Orçamento da União. As propostas mencionadas pelo presidente ainda dependerão da apresentação de textos formais e da aprovação de deputados e senadores.
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Com informações do R7
