Governo acusa Flávio Bolsonaro de legitimar tarifaço dos EUA contra o Brasil

Publicada em • Zeudir Queiroz
(Crédito: AFP)

O governo federal reagiu oficialmente à participação do senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em uma audiência pública realizada nos Estados Unidos para discutir as novas tarifas comerciais impostas pelo governo norte-americano sobre produtos brasileiros. Em nota divulgada pela Secretaria de Comunicação Social (Secom), o Palácio do Planalto classificou a postura do parlamentar como prejudicial aos interesses nacionais e afirmou que ele “legitimou os resultados de uma investigação injusta” conduzida pelos Estados Unidos.

A manifestação do governo ocorreu logo após a audiência, realizada nesta terça-feira (7), que reuniu representantes de entidades empresariais, especialistas, autoridades e cidadãos interessados em debater os impactos do chamado “tarifaço” anunciado pela administração do presidente Donald Trump.

Maioria dos participantes foi contra as tarifas

Ao todo, 78 entidades e pessoas físicas se inscreveram para participar da audiência pública. Destas, 63 defenderam que as novas tarifas não fossem implementadas, enquanto apenas 15 manifestaram apoio às medidas propostas pelo governo norte-americano.

Entre os representantes dos Estados Unidos, o cenário também foi majoritariamente contrário à taxação. Das 44 manifestações registradas, 30 foram contra as tarifas e 14 favoráveis à iniciativa.

Segundo o governo brasileiro, entre todos os representantes do Brasil que participaram da audiência, Flávio Bolsonaro foi o único que não fez uma defesa direta contra as tarifas. Em vez disso, o senador sugeriu que a medida fosse apenas adiada, argumentando que sua adoção neste momento poderia favorecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Flávio pede adiamento das tarifas

Durante aproximadamente cinco minutos de discurso, Flávio Bolsonaro afirmou que a imposição imediata das tarifas poderia fortalecer a imagem política do atual governo brasileiro e pediu que os Estados Unidos aguardassem antes de colocar as medidas em prática.

“Peço respeitosamente apenas uma coisa: não imponham tarifas ao Brasil. Preservem o sucesso dessa reconciliação e permitam-nos negociá-la”, declarou o senador durante sua participação.

Na avaliação do Planalto, porém, a postura do parlamentar foi equivocada por não contestar as justificativas apresentadas pelo governo norte-americano para impor restrições comerciais ao Brasil.

Em nota, a Secretaria de Comunicação Social afirmou que, “em vez de rebater as alegações infundadas do governo norte-americano para taxar o Brasil, o senador optou por legitimar os resultados de uma investigação injusta contra empresários e trabalhadores do nosso país”.

Pix também entrou na discussão

Além das tarifas, outro tema debatido durante a audiência foi o Pix. O governo dos Estados Unidos também levantou questionamentos sobre o sistema brasileiro de pagamentos instantâneos, alegando que ele poderia representar uma prática de concorrência desleal em relação a meios de pagamento privados, como cartões de crédito.

Durante sua fala, Flávio Bolsonaro defendeu o sistema criado pelo Banco Central, afirmando que ele trouxe benefícios significativos para a economia brasileira.

Segundo a assessoria do senador, ele declarou:

“O Pix não é um problema a ser corrigido. É uma solução. Ele ampliou a inclusão financeira ao trazer milhões de brasileiros, especialmente os mais pobres, para a economia formal.”

Governo acusa senador de mudar discurso

Na resposta oficial, o governo também criticou a defesa do Pix feita por Flávio Bolsonaro. A Secom afirmou que o senador e outros integrantes da família Bolsonaro vinham fazendo críticas ao sistema ao longo do último ano e que agora tentam adotar um discurso diferente por conveniência política.

Para o Planalto, a manifestação do parlamentar representa uma tentativa de se apropriar politicamente da popularidade do Pix em um movimento considerado eleitoreiro.

“Ao contrário do que o senador Flávio Bolsonaro e sua família defenderam ao longo do último ano, ele agora tenta mudar o discurso e passar a imagem de que defende o Pix. Mesmo assim, propõe subordinar o Pix aos interesses norte-americanos”, afirmou a nota.

Troca de acusações sobre corrupção

Durante a audiência, Flávio Bolsonaro também fez críticas ao governo federal ao mencionar casos de corrupção, incluindo o chamado Caso Master.

Na resposta, o Planalto rebateu as declarações e afirmou que o senador deixou de mencionar sua relação com o empresário Daniel Vorcaro, além de não citar as investigações relacionadas às fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que afetaram aposentados e pensionistas.

Governo fala em “traição à Pátria”

A nota divulgada pela Secretaria de Comunicação Social termina com críticas duras à postura do senador, afirmando que existe uma diferença entre fazer oposição ao governo e atuar contra os interesses nacionais.

“Divergir do governo é legítimo. Convocar uma potência estrangeira a pressionar o próprio país é traição à Pátria. Há uma diferença essencial entre fazer oposição ao governo e fazer oposição ao país e ao povo brasileiro”, conclui o comunicado do Palácio do Planalto.

A participação de Flávio Bolsonaro na audiência amplia o debate político em torno das relações comerciais entre Brasil e Estados Unidos e ocorre em um momento de crescente tensão diplomática envolvendo as novas medidas tarifárias anunciadas pelo governo norte-americano. – Com informações do Correio Brasiliense
Zeudir Queiroz