A Última que mata

Publicada em • Zeudir Queiroz
Foto: Reprodução da web
Há dias em que o coração cristão não compreende o mundo — apenas o observa, exausto. Vejo o regozijo de muitos diante da morte de faccionados e me pergunto: quando foi que a morte passou a parecer justiça? Talvez o aplauso à barbárie não nasça da maldade, mas da exaustão de um povo que já não acredita em salvação. O Estado, em sua costumeira lentidão, foi se ausentando. E onde o Estado se retira, a violência funda sua república paralela. As facções são o resultado natural do abandono — a colheita amarga de décadas sem política, sem escola, sem teto, sem fé pública. Cresceram nas frestas, como ervas daninhas num terreno deixado ao acaso. Agora, o poder público, em sua pressa, tenta arrancá-las à força, esquecendo que não se limpa o chão sem tocar o solo. As operações policiais que tingem o noticiário de sangue são o retrato cruel de uma política de segurança que confunde ordem com extermínio. Cada corpo estendido é mais um sintoma — não da vitória, mas do colapso moral de uma nação que trocou o direito pelo instinto. Entre tiros e manchetes, o país se acostuma à morte como quem se habitua ao calor do sol: resignado, calado, indiferente. O homem comum, acuado, transforma o medo em alívio: “pelo menos mataram um bandido”. Mas o que parece justiça é apenas desespero vestido de moral. Não é prazer; é ausência de esperança. E quando a esperança falta, a vingança passa a ter nome bonito — e aplauso fácil. Talvez já tenhamos ultrapassado o ponto de retorno. O Brasil se aproxima, a passos silenciosos, do mesmo precipício que tragou Colômbia e México — onde o crime aprendeu a se parecer com o Estado, e o Estado aprendeu a conviver com o crime. Seguimos, entre ruínas, repetindo o velho consolo: “a esperança é a última que morre”. Mas há algo de irônico nisso. No Brasil, onde a esperança resiste até o fim, é ela — a esperança — que nos mata por último.

Colaboração do Dr. Aprígio Silva advogado e jornalista.

Zeudir Queiroz