A Pedra do Capim: Fé, Cura e Mistério no Sertão Cearense

Publicada em • Zeudir Queiroz

A História de uma Pedra Milagrosa

Foto: Reprodução do You Tube

Em 1927, Dona Raimunda Nonata Vasconcelos, viúva do agropecuarista Lúcio Teixeira, falecido em 1923, adquiriu um objeto que se tornaria símbolo de fé, cura e mistério na região norte do Ceará. Moradora da localidade de Capim, no município de Acaraú, Dona Raimunda comprou o que viria a ser conhecida como “A Pedra do Capim”, uma relíquia que, segundo relatos e tradições orais, possui o poder de retirar o veneno de picadas de animais peçonhentos — especialmente cobras, escorpiões e aranhas.

A Origem da Pedra e o andarilho Alfredo

Conforme relatam os mais antigos e como é registrado no livro “A Pedra do Capim” do poeta José Orestes de Albuquerque, a pedra foi adquirida de um misterioso andarilho chamado Alfredo. O viajante, que se apresentava como comboieiro e também curandeiro, hospedou-se na casa de Dona Raimunda e lhe ofereceu a pedra por uma quantia considerável para a época: 50 mil réis.

O vendedor garantiu a eficácia do artefato e afirmou que, caso ele não funcionasse, devolveria o dinheiro. O acordo foi feito com base na confiança e na fé — elementos que marcariam para sempre a trajetória dessa história.

O Primeiro Milagre: A Cura de Ana Joaquina

Foto:  Dona Raimunda Nonata – no livro A Pedra do Capim

Algum tempo depois da compra, Ana Joaquina, filha de Dona Raimunda, foi mordida por uma cobra jararaca. Seguindo as orientações do viajante, a família colocou a pedra sobre o local da mordida. Para o espanto de todos, a pedra aderiu à ferida e, após algum tempo, soltou-se sozinha, já sem a presença do veneno.

O episódio rapidamente se espalhou pela região, e a fama da Pedra do Capim ultrapassou os limites de Acaraú. Desde então, incontáveis pessoas — muitas em estado grave — foram até a família em busca da cura. Há relatos de que até uma freira teria sido salva pela misteriosa pedra.

O Encanto e as regras de uso

Segundo as tradições transmitidas oralmente, a pedra possui regras sagradas que devem ser seguidas para preservar seu poder. O próprio Alfredo, o andarilho que a vendeu, teria deixado as seguintes recomendações:

  • Mulheres em idade fértil não podem ver a pedra, sob o risco de quebrar o encanto.

  • A pedra deve ser guardada sempre em local discreto, longe da vista de curiosos.

  • Ela só gruda no local da picada se o veneno realmente for de um animal peçonhento.

Dona Raimunda seguiu fielmente essas orientações, guardando a pedra dentro de um pequeno baú em miniatura, onde permanece até hoje.

A Herança da pedra

Com a morte de Dona Raimunda, a responsabilidade pela pedra passou para sua filha mais velha, Úrsula Vasconcelos. Após o falecimento de Úrsula, a missão foi herdada por seu filho primogênito, Manoel Jacinto, que manteve o ritual de zelo e respeito à tradição.

Quando Manoel Jacinto faleceu, sua esposa, Dona Rita Moura, residente atualmente no Centro da cidade de Cruz, tornou-se a guardiã da pedra. Ela relata que, conforme a tradição, apenas homens podem vê-la em qualquer idade, enquanto as mulheres só podem contemplá-la após os 60 anos.

A sucessão já está definida: após Dona Rita, o guardião será seu filho primogênito, José Vasconcelos, conhecido popularmente como José Jacinto.

A Pedra através do tempo

Desde 1927, a pedra já passou por diversas localidades: Capim, Jenipapeiro, Macajuba, e hoje encontra-se no Centro de Cruz, município situado a cerca de 245 quilômetros de Fortaleza.

Durante seus 98 anos de história, a pedra jamais foi fotografada ou filmada, pois a família teme que a exposição possa anular seu encanto. O respeito, o mistério e a fé continuam sendo os pilares que sustentam essa tradição viva.

O Reconhecimento e a fé popular

Até mesmo o Padre Manoel Valderi Rocha, que foi por muitos anos vigário da cidade de Cruz e hoje está aposentado, testemunhou casos de cura atribuídos à pedra e reconheceu sua eficácia misteriosa. Para o povo, trata-se de um dom divino, um presente destinado à família Vasconcelos como instrumento de cura e misericórdia.

Por Zeudir Queiroz/Jornal dos Municípios

Zeudir Queiroz