A História da estátua sem cabeça de Santo Antônio vai virar Samba-Enredo da Unidos da Tijuca

Publicada em • Zeudir Queiroz
Foto: Reprodução

Dirigentes da Escola de Samba Unidos da Tijuca, do Grupo Especial do Rio de Janeiro, estão no Ceará para aprofundar pesquisas sobre o novo samba-enredo da agremiação, que terá como tema a história da famosa estátua inacabada de Santo Antônio, localizada no município de Caridade, no Maciço de Baturité. A visita incluiu encontro no Palácio da Abolição com o governador do Ceará, em busca de apoio institucional para a produção de figurinos, alegorias e carros alegóricos do desfile carnavalesco. O líder político da região dos Sertões de Canindé, Júnior Tavares, acompanhou a comitiva durante a agenda oficial.

A história da estátua sem cabeça de Santo Antônio transformou-se, ao longo de décadas, em um dos episódios mais curiosos do imaginário popular cearense. O monumento fica em Caridade, município localizado a cerca de 97 quilômetros de Fortaleza, e tornou-se conhecido nacionalmente pelo aspecto inusitado: o corpo do santo permanece no alto de um morro, enquanto a cabeça gigantesca ficou abandonada por quase quarenta anos em outra área da cidade.

Origem da Estátua

A construção do monumento foi idealizada em 1984 pelo então prefeito de Caridade, Raul Linhares. A proposta era transformar o município em um polo de turismo religioso, aproveitando a proximidade com Canindé, cidade reconhecida pelas romarias dedicadas a São Francisco das Chagas e considerada um dos maiores centros de peregrinação católica do Brasil.

Para executar a obra, o prefeito contratou o escultor Franzé da Aurora, artista popular que residia em Caridade na época e era conhecido por trabalhos em esculturas sacras e monumentos regionais. Franzé iniciou a construção da imagem de Santo Antônio em concreto armado no alto de um morro da cidade, projetando uma estrutura monumental que chamaria atenção de romeiros e visitantes.

A Obra Inacabada

Foto da cabeça de Santo Antonio – Reprodução

Apesar do entusiasmo inicial, a construção foi interrompida em 1986 por falta de recursos financeiros. O corpo da estátua chegou a ser erguido no topo da elevação, mas a cabeça da imagem, produzida separadamente, nunca pôde ser instalada.

Segundo relatos populares e versões transmitidas pelos moradores da região, a cabeça possuía peso excessivo e a estrutura não suportaria os fortes ventos da área serrana. Com a paralisação definitiva do projeto, a peça acabou ficando abandonada em uma rua da cidade, distante aproximadamente três quilômetros do restante da escultura.

Durante décadas, a cena chamou atenção de moradores, turistas, pesquisadores e curiosos. O contraste entre o corpo sem cabeça no alto do morro e a enorme cabeça isolada em outro ponto da cidade transformou-se em símbolo de Caridade.

Lendas Urbanas e Imaginário Popular

A estátua inacabada rapidamente ultrapassou o campo da curiosidade arquitetônica e entrou para o imaginário popular cearense. Histórias misteriosas, lendas urbanas e narrativas sobrenaturais passaram a circular entre os moradores da região.

Ao longo dos anos, surgiram relatos sobre aparições, sons estranhos e crenças envolvendo o monumento. A cabeça abandonada tornou-se ponto turístico alternativo e cenário frequente para fotografias, produções audiovisuais e reportagens sobre os mistérios do interior do Ceará.

A singularidade da obra também inspirou escritores, pesquisadores e artistas, sendo citada em trabalhos sobre cultura popular e memória urbana. O caso da estátua sem cabeça consolidou-se como uma das histórias mais emblemáticas do patrimônio simbólico do interior cearense.

Enredo da Unidos da Tijuca

Agora, décadas depois do abandono da obra, a história da estátua de Santo Antônio de Caridade ganhará projeção nacional ao ser transformada em samba-enredo da Unidos da Tijuca. A escola pretende levar para a Marquês de Sapucaí elementos da religiosidade popular, das lendas urbanas e da cultura sertaneja cearense.

A visita dos dirigentes da agremiação ao Ceará faz parte do processo de pesquisa histórica e cultural para construção do desfile. A expectativa é de que o enredo apresente ao Brasil uma narrativa marcada por fé, abandono, mistério e resistência cultural, tendo como personagem central a famosa imagem inacabada de Santo Antônio.
Zeudir Queiroz